
Trânsito horrendo, absurdo, inviável, odiável! A situação do trânsito nas metrópoles é simplesmente enlouquecedora. Fica-se dentro do carro, olha-se a frente e o que se vê é uma fila grotesca e sem fim de outros carros parados, que não andam, não saem do lugar, não se mexem. E dentro deles, certamente há pessoas que detestam estar ali tanto quanto uma criança gostaria de jantar purê de quiabo. Não adianta recorrer ao desespero, ao cigarro, às jujubas sempre a postos no porta-luvas, ao rádio na estação de músicas “calmantes”. Não há o que fazer. Aliás, há sim. Uma única e derradeira solução: esperar! E esperar...e esperar. Haja paciência.
Pois Lourdes perdeu total e completamente toda sua paciência e mais um pouco. Vendeu seu carro e foi para a Itália passaras últimas férias. Várias semanas de muito spaghetti, visitas ao Coliseu, Torre de Pisa, concertos de ópera, vilarejos, vinícolas e incontáveis capuccinos
depois, estava renovada. Na volta, decidida a encarar a cidade à pé mostrou-se confiante ao comprar o guia de ruas e avenidas, ao telefonar para o serviço de ônibus e ao olhar na internet o itinerário dos metrôs. Já na segunda-feira seguinte, na volta ao trabalho, quinze minutos
antes do expediente estava lá, pronta para encarar sua rotina muito surpresa com o tempo economizado pelo trajeto que fizera.
Naquela manhã, Lourdes acordara às 06h40min, tomara seu desjejum calmamente, depois um banho ainda mais tranqüilo. Tudo planejado, sem riscos, sem medos. Às 07h30min olhava os últimos detalhes da roupa no espelho e passava o batom, o perfume, escovava o cabelo. Quando olhou o relógio pela última vez antes de sair de casa, eram dez para as oito. Ótimo! Nunca saíra tão tarde assim. Precisava ir até o ponto ali perto e pegar o ônibus das 8h em ponto que a levaria até a estação de metrô. Quinze minutos dentro do ônibus (não tão agradáveis assim, já que não pôde se sentar, pois estava praticamente cheio).
Saltou direto na estação do metrô e mais vinte minutos dentro do trem (até conseguiu um assento). Saindo da estação de metrô eis seu destino: o bairro em que trabalhava. Porém a estação não ficava exatamente ao lado do prédio da agência de publicidade, então teve de andar mais três quadras. As quadras de São Paulo são largas como bem o sabem. Lourdes tem os passos firmes e longos, fez o percurso em dez minutos. Somando todo o trajeto levou quarenta e cinco minutos para chegar ao trabalho. Menos da metade que levaria ao fazê-lo de carro. Isso lhe daria pelo menos 1h a mais de sono por dia, o que nesses tempos modernos é um luxo. Irrecusável oferta.
Fora a comodidade de acordar com calma, fazer as coisas pela manhã sem ter que devorar qualquer coisa pela frente, sair correndo. Ela estava tão satisfeita, que dias depois saindo da agência à noite, ia a yoga. Anotara em sua agenda os benefícios: “Tempo de sobra: alimentação e sono melhores, atividade física, menos stress, qualidade de vida enfim! Tudo flui. Me sinto outra!” - realmente, Lourdes nunca esteve tão radiante e era notável. Até os colegas comentavam o quanto aquela pessoa antes reclusa e mal-humorada, passara a ser mais simpática e sorridente.
E essa nova vida ganhou rumos para além das portas do trabalho. Ela passou a sair aos finais de semana para um chopp ou um cinema com as amigas. Começou a fazer artesanato e a cultivar
plantas na sacada de seu apartamento. Até adotou uma gata de rua!
Com tantos novos prazeres e descobertas, Lourdes aventurou-se no mundo da culinária, antes somente limitado a congelados de microondas. Chegando do trabalho, ao som de Jazz preparava fucille ao pesto e apreciava um ou dois cálices de vinho. Da sua visita à Itália trouxera vinhos magníficos que só agora aprendera a degustar.
Tudo ia muito bem e já fazia meses desde que o trânsito caótico era um mero trauma esquecido na vida de Lourdes. Pequenos trajetos divididos entre ônibus-metrô-caminhada eram sua rotina. Até que um dia, depois de um domingo agitado num aniversário da amiga, com doses de tequila, canapés, e risadas, voltou para casa e despencou cansada na cama macia. Esqueceu do despertador para o dia seguinte. Quando finalmente acordou se viu muito, mas muito atrasada para o trabalho. O desespero bateu! Tomou uma ducha gelada na esperança de "acordar" rapidamente e quem sabe se livrar da pequena ressaca. Nem pensou em café-da-manhã. Sabia que seu ônibus passava a cada quinze minutos então foi direto para o ponto. Ansiosa, nervosa...contando cada minuto. Quando chegou ao bairro em que trabalhava...foi fazendo sua pequena travessia dasquadras à pé e quase se sentiu aliviada. Porém um pouco tonta.
Chovia. Era hora de almoço, o bairro estava agitado, todos para lá e para cá. Carros, ônibus, motocicletas, bicicletas, pedestres. Todos indo e vindo numa correria confusa e desajeitada.
Choveu mais forte. Lourdes afoita andava num compasso quase corrido. Foi quando ao atravessar a avenida, pensou estar segura ao ver o farol vermelho. Sentindo-se o próprio The Flash voou para o outro lado. Nesse mesmo momento, um motoqueiro vinha “costurando” os carros parados não a viu. A colisão entre os dois aconteceu e Lourdes caiu desfalecida
no asfalto molhado. Um dos motoristas desceu imediatamente de seu carro gritando:
- Ninguém a mova! Sou médico. - Ninguém mexa nela. Chamem uma
ambulância!
Outro motorista muito irritado gritou a plenos pulmões:
- Malditos motoboys! Malditos sejam! Queimem no inferno!
Uma pequena população se aglomerou ali diante da moça caída, tudo parou. O mundo pareceu ter parado naqueles minutos. Lourdes não ouvia nada, apenas enxergava tudo em câmera lenta como se estivesse num filme. Seus olhos também foram se fechando em slow motion.
Ela não sentia o próprio corpo.
Ninguém sabia quem era aquela moça ruiva dos olhos esmeraldas.
Ninguém imaginava que ela ouvia Jazz enquanto regava suas plantas e brincava com sua gatinha vira-lata a quem chamava de Amora, por causa da cor quase púrpura. Ou então que aprendera a decorar cestas de vime e planejava entrar para aulas de tango. Assistia a filmes preto e branco, os clássicos somente. Já arriscava frases em italiano falaria fluentemente nas próximas férias. Não, ninguém sequer imaginava... nem ao menos seu nome sabiam! Tudo o que tinham visto era o atropelamento.
Fora atropelada injustamente por um motoqueiro maluco e fugitivo. Pois este, assim que se levantou do tombo, pegou sua moto arranhada e tratou de escapar rapidamente sem prestar socorros.
- Ele fugiu! Como pôde? – indagavam-se as pessoas da pequena população que ia aumentando
ao redor da moça caída.
Naquele começo de tarde o mundo parou!
O mundo parou para muita gente naquele começo de tarde.
Para aquele jovem médico que ali estava preso no farol, enfrentando o trânsito de São Paulo, esgotado, ansioso para que os automóveis, táxis, ônibus e motocicletas enfim andassem... a paciência no limite, o mundo estava parado! E ele desejava sumir com os carros de sua frente, pensava na razão de sua existência na Terra...
Mas naquele início de tarde, quando teve de prestar os primeiros socorros àquela moça, para o jovem médico, o mundo de repente começou a girar rápido.
E a sensação era de que tudo o que ele vivera até então tinha apenas começado...





