Segunda-feira, 22 de Dezembro de 2008

Na rua, na chuva, na calçada ou no Asfalto Molhado...


Lourdes morava em São Paulo. Assim como tantos milhões, odiava o trânsito caótico da cidade. Quantas vezes atrasara-se para o trabalho, para compromissos importantes, consultas médicas ou mesmo perdera aquela peça de teatro que tinha esperado meses a fio pela estréia, presa no maldito trânsito.
Trânsito horrendo, absurdo, inviável, odiável! A situação do trânsito nas metrópoles é simplesmente enlouquecedora. Fica-se dentro do carro, olha-se a frente e o que se vê é uma fila grotesca e sem fim de outros carros parados, que não andam, não saem do lugar, não se mexem. E dentro deles, certamente há pessoas que detestam estar ali tanto quanto uma criança gostaria de jantar purê de quiabo. Não adianta recorrer ao desespero, ao cigarro, às jujubas sempre a postos no porta-luvas, ao rádio na estação de músicas “calmantes”. Não há o que fazer. Aliás, há sim. Uma única e derradeira solução: esperar! E esperar...e esperar. Haja paciência.
Pois Lourdes perdeu total e completamente toda sua paciência e mais um pouco. Vendeu seu carro e foi para a Itália passaras últimas férias. Várias semanas de muito spaghetti, visitas ao Coliseu, Torre de Pisa, concertos de ópera, vilarejos, vinícolas e incontáveis capuccinos
depois, estava renovada. Na volta, decidida a encarar a cidade à pé mostrou-se confiante ao comprar o guia de ruas e avenidas, ao telefonar para o serviço de ônibus e ao olhar na internet o itinerário dos metrôs. Já na segunda-feira seguinte, na volta ao trabalho, quinze minutos
antes do expediente estava lá, pronta para encarar sua rotina muito surpresa com o tempo economizado pelo trajeto que fizera.
Naquela manhã, Lourdes acordara às 06h40min, tomara seu desjejum calmamente, depois um banho ainda mais tranqüilo. Tudo planejado, sem riscos, sem medos. Às 07h30min olhava os últimos detalhes da roupa no espelho e passava o batom, o perfume, escovava o cabelo. Quando olhou o relógio pela última vez antes de sair de casa, eram dez para as oito. Ótimo! Nunca saíra tão tarde assim. Precisava ir até o ponto ali perto e pegar o ônibus das 8h em ponto que a levaria até a estação de metrô. Quinze minutos dentro do ônibus (não tão agradáveis assim, já que não pôde se sentar, pois estava praticamente cheio).
Saltou direto na estação do metrô e mais vinte minutos dentro do trem (até conseguiu um assento). Saindo da estação de metrô eis seu destino: o bairro em que trabalhava. Porém a estação não ficava exatamente ao lado do prédio da agência de publicidade, então teve de andar mais três quadras. As quadras de São Paulo são largas como bem o sabem. Lourdes tem os passos firmes e longos, fez o percurso em dez minutos. Somando todo o trajeto levou quarenta e cinco minutos para chegar ao trabalho. Menos da metade que levaria ao fazê-lo de carro. Isso lhe daria pelo menos 1h a mais de sono por dia, o que nesses tempos modernos é um luxo. Irrecusável oferta.
Fora a comodidade de acordar com calma, fazer as coisas pela manhã sem ter que devorar qualquer coisa pela frente, sair correndo. Ela estava tão satisfeita, que dias depois saindo da agência à noite, ia a yoga. Anotara em sua agenda os benefícios: “Tempo de sobra: alimentação e sono melhores, atividade física, menos stress, qualidade de vida enfim! Tudo flui. Me sinto outra!” - realmente, Lourdes nunca esteve tão radiante e era notável. Até os colegas comentavam o quanto aquela pessoa antes reclusa e mal-humorada, passara a ser mais simpática e sorridente.
E essa nova vida ganhou rumos para além das portas do trabalho. Ela passou a sair aos finais de semana para um chopp ou um cinema com as amigas. Começou a fazer artesanato e a cultivar
plantas na sacada de seu apartamento. Até adotou uma gata de rua!
Com tantos novos prazeres e descobertas, Lourdes aventurou-se no mundo da culinária, antes somente limitado a congelados de microondas. Chegando do trabalho, ao som de Jazz preparava fucille ao pesto e apreciava um ou dois cálices de vinho. Da sua visita à Itália trouxera vinhos magníficos que só agora aprendera a degustar.
Tudo ia muito bem e já fazia meses desde que o trânsito caótico era um mero trauma esquecido na vida de Lourdes. Pequenos trajetos divididos entre ônibus-metrô-caminhada eram sua rotina. Até que um dia, depois de um domingo agitado num aniversário da amiga, com doses de tequila, canapés, e risadas, voltou para casa e despencou cansada na cama macia. Esqueceu do despertador para o dia seguinte. Quando finalmente acordou se viu muito, mas muito atrasada para o trabalho. O desespero bateu! Tomou uma ducha gelada na esperança de "acordar" rapidamente e quem sabe se livrar da pequena ressaca. Nem pensou em café-da-manhã. Sabia que seu ônibus passava a cada quinze minutos então foi direto para o ponto. Ansiosa, nervosa...contando cada minuto. Quando chegou ao bairro em que trabalhava...foi fazendo sua pequena travessia dasquadras à pé e quase se sentiu aliviada. Porém um pouco tonta.
Chovia. Era hora de almoço, o bairro estava agitado, todos para lá e para cá. Carros, ônibus, motocicletas, bicicletas, pedestres. Todos indo e vindo numa correria confusa e desajeitada.
Choveu mais forte. Lourdes afoita andava num compasso quase corrido. Foi quando ao atravessar a avenida, pensou estar segura ao ver o farol vermelho. Sentindo-se o próprio The Flash voou para o outro lado. Nesse mesmo momento, um motoqueiro vinha “costurando” os carros parados não a viu. A colisão entre os dois aconteceu e Lourdes caiu desfalecida
no asfalto molhado. Um dos motoristas desceu imediatamente de seu carro gritando:
- Ninguém a mova! Sou médico. - Ninguém mexa nela. Chamem uma
ambulância!
Outro motorista muito irritado gritou a plenos pulmões:
- Malditos motoboys! Malditos sejam! Queimem no inferno!
Uma pequena população se aglomerou ali diante da moça caída, tudo parou. O mundo pareceu ter parado naqueles minutos. Lourdes não ouvia nada, apenas enxergava tudo em câmera lenta como se estivesse num filme. Seus olhos também foram se fechando em slow motion.
Ela não sentia o próprio corpo.
Ninguém sabia quem era aquela moça ruiva dos olhos esmeraldas.
Ninguém imaginava que ela ouvia Jazz enquanto regava suas plantas e brincava com sua gatinha vira-lata a quem chamava de Amora, por causa da cor quase púrpura. Ou então que aprendera a decorar cestas de vime e planejava entrar para aulas de tango. Assistia a filmes preto e branco, os clássicos somente. Já arriscava frases em italiano falaria fluentemente nas próximas férias. Não, ninguém sequer imaginava... nem ao menos seu nome sabiam! Tudo o que tinham visto era o atropelamento.
Fora atropelada injustamente por um motoqueiro maluco e fugitivo. Pois este, assim que se levantou do tombo, pegou sua moto arranhada e tratou de escapar rapidamente sem prestar socorros.
- Ele fugiu! Como pôde? – indagavam-se as pessoas da pequena população que ia aumentando
ao redor da moça caída.
Naquele começo de tarde o mundo parou!
O mundo parou para muita gente naquele começo de tarde.


Para aquele jovem médico que ali estava preso no farol, enfrentando o trânsito de São Paulo, esgotado, ansioso para que os automóveis, táxis, ônibus e motocicletas enfim andassem... a paciência no limite, o mundo estava parado! E ele desejava sumir com os carros de sua frente, pensava na razão de sua existência na Terra...
Mas naquele início de tarde, quando teve de prestar os primeiros socorros àquela moça, para o jovem médico, o mundo de repente começou a girar rápido.
E a sensação era de que tudo o que ele vivera até então tinha apenas começado...

Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Um Cigano Encanto

Soraya estava sentada observando os passos rápidos dos transeuntes daquela rua movimentada. Ela mesma há duas horas atrás estava apressada, atrasada, quase que enlouquecida. Foi para uma entrevista de emprego. Não passou!
Há seis meses vinha circulando os classificados do jornal as possíveis chances de sair do ócio, do marasmo e da pindaíba em que se encontrava.
As contas não esperavam. Luz, água, telefone, gás, impostos, despesas com supermercado e material escolar das crianças. Os medicamentos e toda a infinidade de produtos de consumo que custam dinheiro não se importavam se Soraya era mais uma desempregada no país. E os filhos não ajudavam muito: "Mamãe quero a boneca faz xixi em 20 idiomas" -"Já eu quero o robozinho que pula, dança e rebola Macarena".
É, a televisão tratava mesmo de criar pequenos monstros consumistas desde muito, muito cedo.
Pobre Soraya!
A mãe dava uma pequena ajuda, mas a aposentadoria uma mixaria. O marido deu no pé com a menininha dançarina de funk da comunidade. Soraya se sentia sem perspectivas.
E naquele dia, depois da entrevista frustrada aquela mulher já sem esperanças só pensava nos filhos que teria não apenas que alimentar, vestir e cuidar, mas também dar-lhes brinquedinhos da moda e alguma certeza de futuro. Foi quando observou um mendigo tocando flauta... passou a olhá-lo cuidadosamente. Como era talentoso. E então veio a brilhante idéia. Deu-lhe a louca!
Soraya fora criada por uma mãe espanhola e um pai cigano. Um lar cantante, dançante e feliz. Lembrava-se com alegria da época que cantava e dançava com suas irmãs.
Foi até ele, e delicadamente pediu para que tocasse algumas notas específicas, ao mesmo tempo começou a remexer-se feito lagarta distorcida dentro do vestido formal que vestira para a entrevista. Dançou, movimentou a saia, cantou. Sim, era bela a seu jeito desastrado e tinha uma voz grave ao estilo "canto no chuveiro". Continuaram até o sol se pôr. Ao fim do dia, ela e o surpreso parceiro haviam recebido bons trocados. Ele pediu para que retornasse no dia seguinte. Com o passar dos dias, ela comprou vestimentas adequadas, castanholas, acessórios. O parceiro também vestia-se à caráter para acompanhá-la. Uma típica dupla cigana, flamenca. Bonitos de se ver!
E assim, dançando e cantando nas ruas ao lado do flauteiro, Soraya passa a ganhar a vida. Balançando as longas saias de seda, movimetando os volumosos cabelos pretos e soltando a voz, nasce Soraya cigana, a artista de rua!

Quarta-feira, 5 de Março de 2008

A Manta Vermelha de Lorena

Meu quarto. Meu mundo. Sempre gostei daqui, é o único lugar em que me encaixo, em que verdadeiramente me sinto eu mesma. Fora daqui, sou um peixe sem rio.
Sempre gostei de abrir as janelas pela manhã e ver o sol despontar no horizonte, e as borboletas plananarem seu vôo razante. O aroma do orvalho fresco misturado ao jasmim e às folhas úmidas me trazem aconchego.
Isso ainda existe, ou deve existir. Não sei, não tenho mais percebido. Apenas me escondo aqui.
Quando ouço o grito de mamãe no portão, já sei. Então corro para cá, puxo minha manta vermelha e me escondo embaixo da cama para não pensar.
Ali no escuro absoluto, eu e minha Dor parecemos não existir, pelo menos, ninguém lembra de nós.
Mas ela, a Dor lembra-se de mim, e me castiga, me fere, me mata por dentro.
Estou corroída, maltratada, dilacerada por essa companhia tão indesejável, porém inseparável, contamina minha alma e enche meu coração de revolta.
Dos meus quatro irmãos, três já foram mortos pela guerra.
Mandam-nos um telegrama e dias mais tarde um oficial vem entregar uma medalha de honra pelo bom desempenho do soldado. Como se uma medalha substituísse uma vida, nos aparasse pela perda. Hipócritas!
Já ouvi três gritos de mamãe no portão nesse inverno. Tão agudos e profundos que estremeceram a casa, as montanhas, os arvoredos, e dos seres viventes, os corações e os tímpanos que estivessem numa distância de cem quilômetros daqui.
Por três vezes me escondi com minha manta vermelha de baixo da minha cama e a Dor me acompanhou.
Não sei qual dos três ainda resta. Não tive coragem de perguntar, e está um silêncio tão absoluto por aqui, a única pessoa que troca poucas palavras comigo é meu avô. Mesmo assim, banalidades como saber se estou com frio, fome ou se quero ver sua pior careta.
Não consigo imaginar qual deles prefiro que esteja vivo. Amo todos. Sou a caçula, com uma diferença de 9 a 15 anos entre o mais jovem e o mais velho. Todos ajudaram a cuidar de mim, sempre fui a queridinha, paparicada pelos quatro. E depois da morte de papai, tentaram me compensar com mais e mais carinhos. Meus irmãos, os quero de volta! Guerra maldita!
Pietro, o mais velho com sua sensatez e olhar firme, sempre rígido, preocupado e atento ao futuro da família. Desde que papai se fora assumiu a liderança, e comigo sempre fora protetor; Marco o estourado, tão habilidoso com mecânica, mas de temperamento explosivo, seus eternos conflitos com mamãe e os outros. Já comigo, sempre trazendo-me doces às escondidas, o nosso "segredinho" como ele costuma dizer; Giuseppe o brincalhão, não se importa com regras, dificilmente cumpre suas responsabilidades e nunca quis saber dos estudos, mas cuida dos nossos avós como ninguém e me faz rir sem parar, me sinto confortável e amada ao seu lado; e finalmente o mais novo dos rapazes, Francesco, o estudioso, a esperança de mamãe. Ela quer que saia do campo, vá para a cidade, estude e tenha uma posição importante na vida. Francesco muito ajudou a cuidar de mim, irmã tão mais nova, levava-me à escola de bicicleta, ajudava-me com as lições, depois tornou-se um grande amigo com quem dividi dias e noites de conversas sobre minhas teorias sobre o mundo. Deitávamos no gramado para contar estrelas. Meu confidente.
A cada um amo de uma forma, e não posso imaginar minha vida sem nenhum deles, e três já se foram. Basta-me imaginar qual restou e no qual vou poder dar o abraço mais apertado do mundo.

*

Inverno na Itália, neve forte. Dia cinza de ar pesado.
Grito agudo no portão!
Jamais me esquecerei daquela manhã sombria de Janeiro de 1942.

Estremecendo e chorando fortemente enrolada na manta vermelha embaixo da cama, eu e minha Dor fomos puxadas por vovó num semblante mortalmente amargurado. Seus lábios secos pronunciaram poucas e únicas palavras:

-Vou passar tuas vestes pretas, vá banhar-se para o funeral de teus irmãos, Lorena.

Ali, engolindo lágrimas e soluçando meu sofrimento, compreendi que pouco adianta sonhar, amar ou sorrir. Somos pequenos e insignificantes fantoches diante da Vida, e ela gosta de brincar conosco, suas marionetes.
Aquela noite dormi ao relento no campo... na neve, enrolada apenas em minha manta vermelha, congelando meus pés, meus sonhos, minha alma!

Quinta-feira, 14 de Fevereiro de 2008

Tempesdade Urbana (parte II)

* Ler Tempestade Urbana

Quinta-feira à tardinha, exatamente uma semana depois do dia mais inesperado de sua vida, Leila escovou cuidadosamente o cabelo no banheiro do escritório. Passou batom e perfume que levara na bolsa especialmente para a saída. Ajeitou a saia, olhou-se algumas dezenas de vezes no espelho do corredor.
Os brincos novos e os sapatos de salto davam-lhe um charme especial.
Aqueles vinte minutos para que terminasse o expediente pareceram vinte anos, talvez, vinte séculos.
Andou até o ponto de ônibus em passos ligeiros, não poderia arriscar perder o 65432, número que não saia de sua mente há sete dias.
Chegou no ponto alguns minutos adiantada, pôde dar mais uma ajeitada no cabelo e abrir um livro - para fingir que não estava nenhum pouco ansiosa e a situação sob seu total controle.
Aqueles minutos delongaram-se e enquanto percorria os olhos em linhas desconexas que mal conseguia decodificar, conseguiu identificar a seguinte frase de Shakespeare: "Somos todos fantoches, joguetes do destino." Para ela aquilo soou como melodia suave em sua mente inquieta que, em flashes trazia-lhe memórias da tarde chuvosa em que o cobrador atrevido prometera um reencontro.
Não um reencontro marcado, comum. Um reencontro da vida, do acaso, do destino!
Sim, Leila acreditava nos desígnios misteriosos do destino e não fosse pelo sonho que tivera na noite anterior, não teria voltado ao ponto de ônibus esta tarde.
Sonhara com o moço da catraca que lhe sorrira tão docemente e lhe fizera sentir em turbilhão, em meio a um tornado de vento e de emoções. Era essa a hora, sim, era o destino chamando por ela. Hoje se reencontrariam e tudo poderia acontecer.
Mais alguns minutos de demora e finalmente os olhos de Leila meio confusos e nervosos conseguem ler a numeração do ônibus que pára ali: 65432. Esse! Devia embarcar.
Enfrentou uma pequena fila de duas senhoras e um rapaz em sua frente, ansiosa sobe as escadas e quando finalmente, já dentro do ônibus em movimento consegue avistar o cobrador, seu sorisso murcha, sua expectativa rola para de baixo dos pneus num ato suicída e a decepção toma conta total e completamente de cada molécula de seu ser.

Inacreditável!
Bigodinho ralo, boné do avesso, regata de redinha, unha do mindinho sem cortar, enorme, suja. Ao sorrir para Leila cobrando a passagem, nitidamente o buraco onde faltava-lhe um dente bem ali na diagonal da boca, é a clara explicação das tragédias do mundo!
Não, decididamente não era o moço instigante e charmoso por quem Leila passara a semana inteira a suspirar.

- Obrigada Sr. Destino, muito confiável tu foste! - resmunga ironicamente ao saltar do ônibus para si, para os céus, para o tudo, para o nada.

Leila passou a voltar à pé do trabalho, nunca mais acreditou nessas coisas de destino e tampouco leu Shakespeare novamente!

Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Intensa Alicia


Alicia não sabia fazer tipo. Por mais que tentasse agradar a todos, no final das contas acabava sendo ela mesma, isso muitas vezes afastava as pessoas. Muitas vezes!
Alicia era intensa, com todos os opcionais do “pacote intenso de ser”. Exageradamente exagerada. Uma pessoa muitas vezes sem noção de limites entre as relações. Em alguns dias de amizade já distribuía cartõezinhos com mensagens carinhosas, dava presentes, esbanjava abraços e carinhos. Homens, mulheres, crianças, gatos, cachorros... não havia distinção. E não havia maldade alguma. Era apenas seu jeito exageradamente carinhoso de ser. Na maioria das vezes, muito mal interpretado.
Um belo dia conheceu um rapaz num desses chats de internet. Em dois meses de amizade on-line já pediu o endereço postal para mandar um livro de presente de aniversário. Isso, além de trocar mensagens muito afetuosas que foram obviamente mal recebidas. O moço correu, se escondeu, fugiu para nunca mais voltar.
Assim era com seus relacionamentos reais. Os homens tinham medo de Alicia. A julgavam uma louca qualquer. Não entendiam aquele carinho todo. Na verdade nem Bonovox, seu beagle de estimação entendia muito bem porque era tão amassado, espremido, abraçado, e beijado pela dona. Meio sufocante aquilo! Tanto que o pobrezinho em determinados momentos desejava morar sozinho numa ilha deserta com ração e água fresca.
Foi numa confraternização da empresa que Alicia conheceu Rubens, e logo engataram um namoro. O rapaz conseguia ser tão grudento quanto ela e logo ganharam o apelido de “casal chiclé” (entre outros "apelidinhos" mais maliciosos inventados por aquelas colegas fofoqueiras de plantão que não têm mais o que fazer da vida!).
Chegou o dia em que Rubens a convidou para jantar na casa dos pais. Momento notável, finalmente conheceria Dona Márcia, a tão falada sogra.
Foi então que Alicia entrou em parafuso.
Como faria isso? Como controlar-se diante de ocasião de tamanha imponência? - Pois uma pessoa exagerada geralmente é sincera, e isso às vezes gera indelicadezas. - Ela já tinha ouvido falar (pelas mesmas colegas fofoqueiras de plantão) o quanto a tal mãe de Rubens reparava nas pessoas e desaprovava as namoradas do filho. Era daquelas peruas chiquetérrimas e chatérrimas. Blegh.
Alguns dias sem saber o que fazer, pensou, pensou e mais pensou...
Pois então tomou uma decisão drástica! Alicia resolveu intensificar o exagerado. “Já que é para ir ao jantar, vou fantasiada de mim mesma” – falava para si diante do espelho.
Colocou seu vestido preferido, um modelito ousado e um tanto quanto “cheguei”... e lá foi ela com suas meias arrastão roxas e sapatos de salto laranjas. Rubens espantou-se ao ver a namorada entrar no carro, mas não ousou dizer nada.
Naquele dia Alicia estava decidia a não tentar agradar ninguém, a deixar de segurar o vulcão em erupção que tinha dentro de si, como sempre procurava fazer. Seria ela mesma e ponto final.
Será que a sogra cozinhava bem?